934815ad542a4a7c5e8a2dfa04fea9f5 (1)

COMENTÁRIOS SOBRE O CORPO, A ALMA E O ESPÍRITO.

Rio Bonito, 13 de janeiro de 2004.

A CONSCIÊNCIA DO CIDADÃO

Não se pode voltar o tempo… Só se pode aprender e apreender o conhecimento.
Vivo em tempos felizes, mas, quando se conhece o calor da batalha, quando se tem um símbolo e uma causa para lutar, tudo, nessa época de tanta razão e certeza, passa a não ter qualquer sentido. Pois a morte é saudosa àqueles que guardam parte de suas vidas na memória.
Em outros tempos, eu serviria um rei que estaria sempre ao lado de seu povo. Sua ordem seria acatada aos quatro cantos do reino; pois, nele, só haveria a paz e a prosperidade. Mas, como capricho da humanidade, a inveja das outras civilizações nos traria a desordem e a guerra. Eu poria minha armadura e armas, montaria meu cavalo em direção ao inimigo. Mataria e morreria em nome da justiça e da vontade do meu monarca.
Na saída do feudo, as mulheres levariam flores e pétalas de rosas para os soldados. Minha donzela estaria lá me desejando sorte e exigindo minha volta vitoriosa, ou o retorno do meu corpo estendido sob o escudo. Das duas formas, minha dinastia estaria honrada e remida. Com sorte, minha consorte me beijaria, choraria e me pediria para ficar com a tristeza no olhar.
Sem dúvida alguma, inúmeros corpos cairiam, como a ordem seria restabelecida; porque o meu rei manter-se-ia benevolente e justo, enquanto que, para o homem, jamais haver-se-ia injustiça.
Lembro-me que após as batalhas, visitava, em contemplação, o mar. Observava as estrelas em contraste com o reflexo frígido das águas. O fogo era a única manifestação de vida dentro do cenário sombrio do arrependimento.
E, vida após vida, fui mudando a ótica da batalha. Talvez, pela evolução da consciência; ou pela injustiça monárquica. Decerto, uma vez conhecendo a escravidão, não se pode aceitar as coisas como elas são. Então, passei a protestar através da força. Matei, roubei, dividi e menti em nome da procura constante da justiça. Mas, no final, ela nunca vinha. E, vida após vida, fui conhecendo o tronco, a forca, a guilhotina e o pelotão de fuzilamento.
Foi durante a viagem, no século XVIII, que aprendi o significado da palavra falada e escrita. Foi no mesmo século que me embebedei nos ideais de democracia, república e da retórica popular. Aprendi também que a vida tem seu preço: – Ou a liberdade, ou a tirania. Mas, continuei culpando o rei, quando o culpado real era o povo em sua pacata insegurança. Todavia, vivíamos a moda do cidadão e da nação.
Lembro-me que passamos por duas guerras mundiais e que todos os conceitos de civilização, outrora esquecidos na áfrica e Ásia, estavam sendo abandonados no seio das ideias, a Europa, com o consentimento popular e erudito. Simplesmente, o cidadão, a liga das noções, e as camadas populares davam lugar ao saudoso ostracismo e a novos regimes, que acobertavam ideais egoístas e antigos.
Lembro-me que, naquela época, só bastava discordar para ser considerado um criminoso. E assim, a teoria evolucionista de Darwin justificava todos os abusos de autoridades aos seres humanos, legitimando, através da ciência e com o consentimento das religiões cristãs, o extermínio de idealistas naturais, que só desejavam viver a sanidade da tradição e da família, os asiáticos, os africanos, os judeus e os ciganos. “SOMENTE OS MAIS FORTES SOBREVIVEM.” E, fundamentados no ideal da seleção natural, os alemães nos mandaram para os campos de concentração. Trabalhávamos catorze horas por dia, com pouca ração. Tínhamos, somente, a promessa da vida eterna. Mas, diante dos horrores da guerra, as promessas divinas e a esperança desaparecem por inteiro… E assim, fui perdendo minha família, membro por membro. E assim, fui me perdendo dentro da minha fé e da minha indignação. Fui o último de minha geração… Vi as constelações caírem e os buracos aumentarem. Vi também a carnificina e genocídio de três povos. Não me deram, sequer, uma pedra para eu tentar salvar minha família.
O mais estranho é que não fui preso por isso ou aquilo. Minha prisão foi fundamentada por minha tendência comunista. Foi, somente, mais tarde, que descobriram a minha origem. E queimaram meus livros e minhas escritas. Roubaram minha última gota de dignidade. Lembro-me das tentativas frustradas e revolucionárias em Hamburgo. Os cemitérios eram o cenário predileto dos cânticos e dos confrontos movidos com paus e pedras… Cantávamos num idioma, para mim, há muito tempo esquecido… Tenho pesadelos constantes sobre tais tragédias.
Talvez, se tivéssemos um rei justo, nada daquilo que aconteceu teria acontecido… E ainda, em perjúrio, fui confundido com os anarquistas que não tinham ideias exatas e que adoravam explodir bares e restaurantes.
Conheci o inferno terrestre e o limbo. Não vi as promessas divinas, mas descobri que há vida após a morte… Descobri também que há o bem e o mal… E que nossa consciência nos julga imortalmente. Há um plano divino para todos, mas a maioria não consegue concretiza-lo porque o mundo é grande e maior é o egocentrismo do indivíduo, que deseja superar o dever do cidadão.
Hoje, tenho a nova consciência de que o todo está em seu devido lugar. Não adianta se opor e se rebelar contra o Estado, as formas de governo e aos males da vida; pois as instituições sociais são formadas por homens, que possuem desejos e aspirações de sua época. A revolução pode até destruir o alicerce das instituições físicas, mas, diante da ignorância e da ganância individual, elas não passam de oportunidades para alternar àqueles que desejam o poder… E quanto maior o poder, maior será a responsabilidade, maior será o peso e o declínio. Só há uma forma decente e exata de revolução, a revolução de consciência, àquela que começa antes do útero materno e que se propaga pela transposição moral de geração a geração. Uma vez fertilizado o solo do conhecimento, a vida nunca mais será a mesma como a própria sociedade que conhecemos. Por tal motivo, solicito ao Divino que me dê à oportunidade de casar, ter filhos, educa-los e perpetuar parte de minha nova consciência através da instituição da família… E que o dia de meus descendentes sejam tão nobres, na magnitude da humildade, como têm sido os meus.
Já fui Senhor. Já fui escravo. Já fui filósofo e sofista. Já comandei legiões e também fui comandado. Ajudei a destituir reis e também fui destituído. Mas, nada disso tem mais importância, uma vez que a felicidade é fazer aquilo que se gosta. Estou feliz por ser ninguém, por não ter que comandar e decidir a vida de outros… Todavia, se, no futuro, se manifestar à obrigação de fazê-los, continuarei feliz; pois saberei que não veio de minha vontade e procura, mas da vontade do Altíssimo.
Gostaria de ter a oportunidade de pedir desculpas ao Rei; porque ele caiu, enquanto que os problemas sociais aumentaram. Precisei de três séculos e de duas guerras mundiais para compreender tudo isso. Aos leitores extemporâneos, só espero a compreensão das idéias e do espírito; porque, aos olhos materialistas, tudo que aqui narrei não passará dum ato de loucura que a ciência refutará sem perdão. Mas, não foi num momento de loucura que escrevi tal bula; e sim, num momento contínuo da consciência do meu dever de cidadão material e espiritual.

 

Nadelson Costa Nogueira Junior