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A experiência e o óbvio

Durante muito tempo, eu tenho nadado contra a corrente majoritária do pensamento e do comportamento humano. Enquanto as pessoas acumulam coisas, eu aprendi a viver experiências. Viajar é bom, mas não estou falando do turismo. Estou me referindo ao ato de admirar e aprender com o óbvio, como amar, comer, beber, conversar, ler, educar e, principalmente, compartilhar.

Sinto prazer em ficar na minha casa, degustar uma xícara de chá ou de café, comer um doce, escrever por escrever, bem como admirar o desenvolvimento da minha filha e da minha família.

Aprendi , ainda na infância, que o tudo jamais será o bastante para o consumista. Por isso, fui me desapegando das coisas, porque há sempre algo além no sorriso, na gargalhada ou na lágrima. Gosto de me surpreender pelo desconhecido, desde que haja a conexão, através de uma boa conversa, descobrindo um amigo, mesmo que nunca o veja depois da casualidade no ponto do ônibus ou na poltrona de um avião.

Admiro a dedicação de alguns pelo status, construindo carreiras e fazendo fortunas. O problema é que, na maioria das vezes, esse tipo de gente não possui profundidade, porque eles qualificam o mundo pelo poder do consumo.

No final, é no calor da família e da nossa casa que a posse acaba, porque no lugar do eu, existe o nós. Somente o pai, a mãe e os filhos poderão compreender a simplicidade dos pronomes, tendo em vista que o melhor fundo de investimento é a experiência de participar do desenvolvimento de alguém que será melhor do que sou. Caso contrário, a existência seria a total perda do tempo, se limitando à arte da vida na construção do abstrato.

 

Por Nadelson Costa Nogueira Junior

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O ovo do povo

Por entre os brinquedos das crianças,

Os políticos se realizam,

Subornando, com a gratidão,

A dependência financeira e a ignorância.

 

Por entre os cargos comissionados,

Os políticos negociam,

Transformando o público em privado,

Fazendo cortesia com o chapéu alheio.

 

Por entre as palavras do discurso da crise da saúde,

Os políticos lamentam a falta de dinheiro e amiúde,

Mas não fazem qualquer economia,

Chantageando a opinião pública para pressionar Brasília.

 

Por entre erros e mais erros,

Os políticos transformaram a república em várias monarquias.

Gastam todo o dinheiro do tesouro,

Contando com o ovo do povo.

 

Na próxima eleição,

O político apertará sua mão.

Ele levará seu voto e trabalho.

Cometerá o crime perfeito, com o abraço.

 

Ele colocará a culpa na crise mundial.

Dirá que falta dinheiro para o investimento público.

Mas, patrocinará festas e andará em carro oficial,

Pois, para eles, o eleitor é somente um número.

 

O cidadão, na qualidade do otário,

Pensa que é tudo em função das regalias e do salário.

Entretanto, o político precisa do seu voto e consentimento,

Para fazer acordos e dividendos com o orçamento.

 

Quando você pensa que já viu de tudo,

O político passa a investir em pedra brita,

Porque ela é a matéria-prima do concreto

E do trono futurista do Poder Executivo.

 

Se o dinheiro acabar,

Eles criarão um novo imposto.

O Estado precisa arrecadar,

Contando com o ovo do povo.

 

Por Nadelson Costa Nogueira Junior

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À Sombra do Poeta e da Mentira

Rio Bonito, 20 de novembro de 2005.

 

Alguns escritores e poetas se consideram farsantes ou enganadores, uma vez que escrevem aquilo que sentem. Mas a fantasia, embora seja real aos olhos do criador, para o leitor parecerá somente ficção, lirismo, métrica e literatura.  Em suma, um conjunto de letras que, em inferência ou não, objetiva dizer algo além das palavras.

Diante da proposta, há diferença entre o jornalista, o editor e o escritor, uma vez que o último escreverá para iluminar sua visão da vida ou para compreender seu apogeu.  Em sua linguagem, não há mentira ou pecado, somente a manifestação concreta ou abstrata da sua busca.

Há ilusão e fantasia em minhas palavras, mas a mentira se faz ausente, pois esses vocábulos saem do coração, sem o desejo de dinheiro ou do reconhecimento social. Eles só desejam sair e sacudir as cabeças e corações das pessoas, com ou sem imaginação.

Para piorar a situação da escrita, fica aquela sensação de que o poeta acredita realmente que pode voltar e recuperar o tempo perdido, só porque escreveu coisas lindas e incompreensíveis durante anos.  Não…  De fato, isso é uma inverdade; pois a escrita é exatamente isso, funcionando como uma justificativa dos atos.  O princípio vai muito além dessa simples e infantil interpretação, uma vez que ela serve para testemunhar que, independentemente de quem esteja ao lado da pessoa amada, alguém passou em sua vida e se imortalizou, por si só, em vocábulos e no seu coração. Para o indivíduo que tomar ciência do tamanho dessa graça, tornar-se-á dificílimo o convívio ou a concorrência literária e afetiva, desde que o mesmo aceite a ideia de que continuará um trabalho, que não será terminado.  E assim, por causa dos poetas, matrimônios são destruídos e esposas se escondem nos quartos ou nos banheiros para chorar.  Isso acontece, porque a escrita é um dom, enquanto que o companheiro, no geral, é incapaz de compreender a necessidade que a mulher tem de receber carinho, toques, cafunés e exaltações populares de amor na rua…  Isso acontece, porque a mulher gosta de imaginar a valsa com seu príncipe encantado, ser acordada aos beijos antes que o mesmo parta ao trabalho, ser irritada quando tem que fazer algo muito importante, entre inúmeras outras coisas.  Esse fenômeno ataca as mulheres novas e idosas.  É um fato social aos olhos do cientista social.  É considerado um trauma de insatisfação pelos psicanalistas e uma idiotice pelo resto da humanidade.

O fato é que o cavalheiro poderá enviar bombons, flores, presentes diversos à mulher amada.  Entretanto, uma vez que ela se vê influenciada pela escrita dum poeta, não haverá mais volta à realidade.  Primeiro, ela aceitará os cortejos por educação. Depois, passará a vê-los como bens de consumo. Mais tarde, verá que qualquer um poderá dá-la isso. Daí, só haverá dois caminhos: se conformar com a realidade e fingir que tudo está lindo, ou lotar sua casa de livros e romances.

Acredite cavalheiro desalmado, caso sua consorte esteja com olheiras, olhando para o lado constantemente, saia contigo, olhando para baixo ou para as estrelas, bem como, esteja demorando muito no banheiro para tomar banho, pode ter a certeza de que algo está errado, enquanto que alguém está se entregando em lágrimas num cômodo isolado do lar ou da alma.  E saiba que, quando uma mulher sorrir sozinha no banheiro, é porque existe um poeta ou um palhaço em sua vida…  Ser poeta exige essa habilidade também: a arte de fazer as pessoas rirem.

Depois de tudo que foi dissertado, o cavalheiro concluirá que o poeta é um mito, para fazer o sexo com sua amada, ejacular e dormir instantaneamente…  Para ficar diante das pessoas sem se preocupar com aquilo que as mesmas pensam dele, pois ele se tornou um ser comum, que só deseja saciar seu desejo. E assim, nasce aquele dito popular: “A fila anda”. E coitada da mulher, que, geralmente, se ilude com a possibilidade da materialização do poeta e do príncipe encantado na sua frente. Ela fica triste e tenta alcançar o orgasmo no imaginário, pois noventa por cento da cama é uma farsa para a maioria dos mortais.

O que seria da mulher, senão, a existência conceitual do artista e do poeta? – Eu tenho certeza de que essa tendência afeta a maioria dos lares e famílias deste mundo, cujas pessoas são incapazes de fazer carícias em suas parceiras…  – E que saudade tenho das mordidas nos lábios de minha escolhida, bem como, beijar seu pescoço e lhe fazer cócegas nas costas e quadril! Infelizmente, para a maioria, os poetas existem, mas são poucos e estão acabando com o transcorrer do tempo.  Eles não são somente mentes geniais que escrevem, tendo em vista que possuem sensibilidade e sabem como tocar a alma feminina, a mesma querendo ou não. E triste será o homem que viver ao lado duma mulher que realmente conheceu um poeta e teve o monopólio de seus carinhos e dedicação; pois ele será uma sombra e somente isso.  No máximo, ele dirá “AMOR”, “EU TE AMO”, que são conceitos e conjunções com sentidos pré-montados em nossa história. Ele puxará a mulher pela mão e a levará para algum lugar sem saber se há o consentimento ou não. Ele a terá; porque precisa mostrar a necessidade daquilo que tem. – Talvez seja esse o motivo do final dos casamentos e dos contratos matrimoniais de nosso século: a falta de literatura ou de imaginação.

De fato, coitado será o homem que estiver à sombra dum poeta, pois, caso não lhe haja o dom, sua vida será um fracasso, porque as mulheres sempre comparam tudo entre si.

A mulher que tiver seu poeta, o mantenha vivo; pois o recurso está escasso.  Àquela que não tiver, que compre muitos livros de banheiro ou de cabeceira, talvez a ajudará no momento da frustração.  Entretanto, agora consegui compreender porque os homens gostam muito de revistas de mulher pelada, enquanto que as mulheres se dedicam à literatura; pois, enquanto a mulher quer a qualidade em um único homem; o homem deseja a quantidade imensurável de mulheres.  E, até nesse ponto, o poeta tem importância considerável; pois tanto a prostituta quanto o garoto de programa precisarão ler algo sobre sentimento para realizar seus clientes.  Logo, no final, o poeta acaba saciando a todos, com suas limitações física-culturais ou não.  Diante disso tudo, uma coisa é certa: – Eu sou poeta e tenho ciência do tamanho de minha graça e do meu valor diante do mundo.  Sei que sou imortal e que o meu lugar ser-se-á na cabeceira da cama de alguma mulher ou em seu banheiro. Mas, diante de tamanha magnitude, gostaria de ficar somente na sua cama e de fazer parte de sua vida como o poeta humano, e não, o poeta celulose; porque qualquer analfabeto rabisca papel.

 

Por Nadelson Costa Nogueira Junior

Périplo Poético

Tempestade Poética

Ainda não é inverno, mas o frio já se faz presente. O mês de junho é triste, pois nele as folhas começam a cair, os ventos mudam de direção, enquanto que as pessoas começam a se aproximar umas das outras por uma questão afetiva ou de calor humano. Para piorar, o comércio criou o dia 12 de junho, o dia dos namorados, no intuito de vender mais presentes, de lotar os motéis, os restaurantes, e, principalmente, fazer os solteiros se sentirem péssimos pela solidão diante de tanto romance, desde a entrega das flores, das caixas de bombom, das trocas de beijos e de carícias em público, entre outras coisas. Para o solteiro, só resta o total recolhimento ao desespero, pois a ideia de tal dia faz com que acreditemos na possibilidade de resolver, num único instante, tudo aquilo que o indivíduo não conseguiu resolver a vida inteira.
Na tentativa de explicar para si mesmo que tudo está muito bem e que a sensação de abandono passará, o solteiro começa a beber uma taça de vinho. E assim vão duas, três… Até as taças se converterem em litros, enquanto que a maldita sensação de tristeza e abandono aumenta mais e mais, até sufocar o batimento do peito. Uma lágrima escorre sobre o rosto, e o solteiro sabe que não é o princípio do resfriado; porque o resfriado se cura com repouso e analgésico. Mas, qual será a cura para a dor da solidão? Com sorte, talvez o solteiro possa solicitar ao garçom um papel e uma caneta, pois a tempestade poética poderá lhe abater a alma e toma-lo por inteiro. As letras nascerão em forma de prosa ou verso. As paixões antigas se farão presentes. A saudade passará a ser a medida do passado, enquanto que a tentativa de apaga-lo, torna-se a esperança de encontrar alguém melhor no futuro. E o solteiro escreverá como nunca, porque ele nunca havia sentido tamanha dor antes. Ele nunca desejou desaparecer do tempo presente.
Então, quando a alma solitária estiver quase torpe, o solteiro pegará seu carro e dirigirá pela estrada a fora, como um louco, esperando a possibilidade de ser abduzido. Todavia, o retorno seguro para casa é certo, e, certamente, a mesma dor se manifestará pela manhã e se estenderá até a hora de dormir; porque o solteiro conheceu a tempestade poética.
Tais conflitos seriam normais, se todos seus amigos não estivessem casados, enquanto que o seu cronômetro biológico lhe avisa que está chegando aos trinta, sem amor, sem filhos, sem ninguém.
Os casados passam a inveja-lo pela ideia de liberdade. O solteiro passa a duvidar de tudo isso, porque é totalmente livre. Decerto, há tempo para tudo, principalmente, para se casar e ter filhos. Eu acho que meu tempo passou… Madurei demais e estou quase apodrecendo. Com muita sorte, eu ainda poderei encontrar uma velha gagá que me contará todo o segredo do reumatismo e da artrite.
Talvez essa seja a sina da tempestade poética: – trazer-nos a consciência de que seremos os fósseis dos seres improdutivos para sociedade contemporânea, pois o solitário só produz para si, mesmo quando é praticante da caridade.

Nadelson Costa Nogueira Junior

20/06/2004

Imortalidade.

Somos seres compostos de carbono, hidrogênio e oxigênio.

Dizem que a vida é o resultado do acaso da existência da matéria ou de um projeto divino, sem medição.

Simplesmente, a evolução adveio de uma única molécula de aminoácido, que através das condições ambientais do meio, foi se adaptando ao tempo e ao espaço, desmembrando-se em novas formas de vida. Entretanto, com o o ácido desoxirribonucleico (DNA) variando de uma forma de vida para outra. Logo, esse é o resumo da teoria evolucionista, defendida e aplicada até a atualidade pela sociedade científica.

Em contrapartida, os filósofos antigos e contemporâneos sempre comungaram da ideia de um DEMIURGO, uma força natural que está em toda criação, fazendo sua parte no processo criativo no ponto de equilíbrio natural entre a vida e morte conceitual, como as conhecemos.

Todavia, não pretendo me alongar sobre um assunto, cujo conteúdo se estenderia pela eternidade da negação dos envolvidos. Me limitarei à essência humana e sua consciência, que foi programada ao longo de gerações para sobreviver e resistir, na busca pela imortalidade.

O termo imortalidade é simplesmente “não morrer”. Salvo a literatura religiosa, o máximo que um ser humano poderia se aproximar da imortalidade, considerando os padrões físicos e químicos do mundo material, seria através da perpetuação da sua espécie, garantido a continuidade do rio sanguíneo de um lado, e transposição do DNA do outro. Assim, nesse processo de gerações, seriam transferidos, literalmente, conteúdos e programações, que ainda não compreendemos e alcançamos.

Seguindo essa mesma programação natural e inconsciente, o indivíduo já nasce consciente de que morrerá um dia. Todavia, o mesmo fará questão de seguir a programação inconsciente de toda uma espécie, em se considerar imortal, rendendo-se aos padrões da vaidade e do ego. Sem dúvida, se fosse esse conflito existencial entre o indivíduo e o coletivo, talvez, a humanidade não tivesse saído do seu estágio embrionário. Talvez, ela estivesse dentro de um tubo de ensaio, aguardando que seu criador cometesse uma tentativa de acerto ou erro, no intuito de corrigir algo, que não poderia mais ser detido no processo divino ou científico, uma a fusão nuclear ou o surgimento da própria vida.

No final, eu optei em acreditar que existem várias dimensões. Que a vida material é uma espécie de roupagem para uma existência energética e autônoma, chamada de espírito. Com todas as teorias, estando as mesmas em exercício ou em desuso, a que mais me identifico é a do DEMIURGO, pois gosto da ideia de ser parte de algo maior do que eu mesmo. Também gosto da ideia de ser parte de um grande projeto e de um tubo de ensaio chamado realidade. Gosto de acreditar de que sou mais espírito do que carne, que sou mais consciência do que ciência, que sou nada diante de tudo.

Minha imortalidade está em minha filha. Todavia, eu me atrevo a afirmar que nossa existência está além de seu plano, como se colocássemos vários espelhos, um em frente ao outro, gerando um infinito de projeções em si mesmos.

Nadelson Costa Nogueira Junior