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A sociedade disciplinar versus a sociedade de controle

Entende-se como sociedade disciplinar, como o modelo da organização sociocultural que predominou desde a era feudal até a primeira fase da era industrial no final do século XVIII e início do século XIX, cuja base se fundamentava no controle social entre a Igreja e o Estado, enquanto que as relações de trabalho se realizam nos ofícios, de forma artesanal, sendo o conhecimento transferido de pai para filho. Um exemplo muito forte dessa organização se dá nos países na Europa, principalmente, na Alemanha, cujos sobrenomes eram justamente os ofícios ou profissões da família. Exemplo, Schumacher, que significa sapateiro no idioma alemão.  É, justamente nesse período, que surgirão o exército dos órfãos pela Europa, ora em função das guerras, ora em função da baixa esperança de vida e das desigualdades sociais. Logo, para atender as necessidades socioculturais da época as Igrejas Católica, Anglicana e presbiteriana, criaram o modelo do orfanato, que tirava o órfão das ruas, o disciplinava para o trabalho e para o conhecimento necessário naquela época, visando a manutenção dos meios de produção e as forças produtivas.

Foi a partir do modelo idealizado na sociedade disciplinar, que nasceu o conceito da educação como a ferramenta lapidadora do indivíduo, preparando-lhe para as necessidades do mundo de sua época.

Com o advento da máquina a vapor, do tear e da organização do chão das fábricas, objetivando a produção em larga escala, tornou-se necessário um novo modelo de ajustes da sociedade, objetivando manter sua existência econômica, política e social.  Assim, com a revolução industrial no final do século XVIII e início do XIX, surgirá uma nova visão da sociedade e dos cidadãos, que passaram a ser vistos como trabalhadores e consumidores, chamada pela maioria dos autores da teoria geral da administração como a SOCIEDADE DE CONTROLE. Nela, surge o modelo a educação industrial, estabelecendo padrões e rotinas, desde a infância, que, de forma progressiva, além de moldarem o comportamento humano, também fornecia o conhecimento e as ferramentas necessárias, objetivando manter a sociedade de consumo em funcionamento.

Enquanto a SOCIEDADE DISCIPLINAR se baseava na estabilidade, na tradição, na continuidade do indivíduo nas relações sociais, principalmente, àquelas diretamente relacionadas ao trabalho e à carreira, o modelo da SOCIEDADE DE CONTROLE foi construído sob os pilares da instabilidade do mercado, que se perpetuava e, ainda, se perpetua na maioria das instituições sociais, sendo-lhes orgânicas ou mecânicas, jurídicas, empresariais, liberais, religiosa, política e até mesmo a própria FAMÍLIA.  Embora os historiadores e pensadores da teoria geral da administração se prendam aos séculos como referência de um modelo para outro, ambos estão atuando sob a realidade humana ocidental nesse exato momento. Tudo dependerá da forma como a cultura local ou organizacional resistiu. Entretanto, quanto mais próximo o indivíduo se faz do mercado e da globalização, mais próximo fica do modelo da sociedade de controle, cuja coerção social ganhou mais força gravitacional com o advento e a popularidade dos meios de comunicação, através da internet, dos celulares e dos computadores portáteis. Essas tecnologias estão moldando as gerações, diminuindo o prazo de uma para outra, acelerando o processo do desenvolvimento tecnológico.

Enquanto a Geração X, que visava justamente a tradição, a estabilidade e a carreira numa mesma empresa, a Geração Y, marcada pelo advento da internet,  já demonstra impaciência no planejamento da carreira, buscando, inclusive, o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, mesmo que isso signifique ganhar menos. Quanto aos vínculos longos com as organizações, esses já se foram, em função da instabilidade da nossa época. Assim, a tecnologia ampliou a comunicação com os smartphones e portáteis, permitindo que o ser humano fique conectado 24 horas por dia, acessando uma infinidade de dados e informações. Embora pareça ser uma coisa natural e simples para nossa era, tais tecnologias diminuíram o tempo de 20 para 10 anos de uma geração para outra, entrando no mercado a GERAÇÃO Z, com as características similares à GERAÇÃO Y, mas com menos paciência, mais pressa, e fazendo multitarefas ao mesmo tempo. Logo, a sociedade passou por três mudanças de consciência em menos de 30 anos, com uma instabilidade generalizada, que é solucionada nas relações do trabalho, onde a Empresa tem que se sentar com o colaborador, objetivando reter seus talentos e alcançar o ponto de equilíbrio existente entre o lucro dos acionistas e satisfação do profissional.

As mesmas tecnologias cederam ferramentas e estruturas para o acompanhamento das relações do trabalho dentro das empresas, enquanto que o Estado está fazendo o mesmo no lado de fora, no público. No final, não importará a cultura, a época ou o nome que darão aos modelos, tendo em vista que serão as ciências políticas que definirão todo o contexto histórico numa única palavra: – VIOLÊNCIA. Esse vocábulo foi moldado com o transcorrer do tempo, tornando o ser humano indiferente ou anestesiado aos fenômenos e comportamentos que ocorrem na atualidade.

Por fim, a sociedade de consumo usará a violência para manter a máquina funcionando, enquanto que os cidadãos verão os mecanismos inconscientes da democracia e da liberdade de escolha, que são apresentadas de forma programada às gerações. E assim, continuaremos vivendo entre as figuras ilustrativas da toupeira (Sociedade Disciplinar) versus a serpente (Sociedade de Controle).

 

Por Nadelson Costa Nogueira Junior

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