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À Sombra do Poeta e da Mentira

Rio Bonito, 20 de novembro de 2005.

 

Alguns escritores e poetas se consideram farsantes ou enganadores, uma vez que escrevem aquilo que sentem. Mas a fantasia, embora seja real aos olhos do criador, para o leitor parecerá somente ficção, lirismo, métrica e literatura.  Em suma, um conjunto de letras que, em inferência ou não, objetiva dizer algo além das palavras.

Diante da proposta, há diferença entre o jornalista, o editor e o escritor, uma vez que o último escreverá para iluminar sua visão da vida ou para compreender seu apogeu.  Em sua linguagem, não há mentira ou pecado, somente a manifestação concreta ou abstrata da sua busca.

Há ilusão e fantasia em minhas palavras, mas a mentira se faz ausente, pois esses vocábulos saem do coração, sem o desejo de dinheiro ou do reconhecimento social. Eles só desejam sair e sacudir as cabeças e corações das pessoas, com ou sem imaginação.

Para piorar a situação da escrita, fica aquela sensação de que o poeta acredita realmente que pode voltar e recuperar o tempo perdido, só porque escreveu coisas lindas e incompreensíveis durante anos.  Não…  De fato, isso é uma inverdade; pois a escrita é exatamente isso, funcionando como uma justificativa dos atos.  O princípio vai muito além dessa simples e infantil interpretação, uma vez que ela serve para testemunhar que, independentemente de quem esteja ao lado da pessoa amada, alguém passou em sua vida e se imortalizou, por si só, em vocábulos e no seu coração. Para o indivíduo que tomar ciência do tamanho dessa graça, tornar-se-á dificílimo o convívio ou a concorrência literária e afetiva, desde que o mesmo aceite a ideia de que continuará um trabalho, que não será terminado.  E assim, por causa dos poetas, matrimônios são destruídos e esposas se escondem nos quartos ou nos banheiros para chorar.  Isso acontece, porque a escrita é um dom, enquanto que o companheiro, no geral, é incapaz de compreender a necessidade que a mulher tem de receber carinho, toques, cafunés e exaltações populares de amor na rua…  Isso acontece, porque a mulher gosta de imaginar a valsa com seu príncipe encantado, ser acordada aos beijos antes que o mesmo parta ao trabalho, ser irritada quando tem que fazer algo muito importante, entre inúmeras outras coisas.  Esse fenômeno ataca as mulheres novas e idosas.  É um fato social aos olhos do cientista social.  É considerado um trauma de insatisfação pelos psicanalistas e uma idiotice pelo resto da humanidade.

O fato é que o cavalheiro poderá enviar bombons, flores, presentes diversos à mulher amada.  Entretanto, uma vez que ela se vê influenciada pela escrita dum poeta, não haverá mais volta à realidade.  Primeiro, ela aceitará os cortejos por educação. Depois, passará a vê-los como bens de consumo. Mais tarde, verá que qualquer um poderá dá-la isso. Daí, só haverá dois caminhos: se conformar com a realidade e fingir que tudo está lindo, ou lotar sua casa de livros e romances.

Acredite cavalheiro desalmado, caso sua consorte esteja com olheiras, olhando para o lado constantemente, saia contigo, olhando para baixo ou para as estrelas, bem como, esteja demorando muito no banheiro para tomar banho, pode ter a certeza de que algo está errado, enquanto que alguém está se entregando em lágrimas num cômodo isolado do lar ou da alma.  E saiba que, quando uma mulher sorrir sozinha no banheiro, é porque existe um poeta ou um palhaço em sua vida…  Ser poeta exige essa habilidade também: a arte de fazer as pessoas rirem.

Depois de tudo que foi dissertado, o cavalheiro concluirá que o poeta é um mito, para fazer o sexo com sua amada, ejacular e dormir instantaneamente…  Para ficar diante das pessoas sem se preocupar com aquilo que as mesmas pensam dele, pois ele se tornou um ser comum, que só deseja saciar seu desejo. E assim, nasce aquele dito popular: “A fila anda”. E coitada da mulher, que, geralmente, se ilude com a possibilidade da materialização do poeta e do príncipe encantado na sua frente. Ela fica triste e tenta alcançar o orgasmo no imaginário, pois noventa por cento da cama é uma farsa para a maioria dos mortais.

O que seria da mulher, senão, a existência conceitual do artista e do poeta? – Eu tenho certeza de que essa tendência afeta a maioria dos lares e famílias deste mundo, cujas pessoas são incapazes de fazer carícias em suas parceiras…  – E que saudade tenho das mordidas nos lábios de minha escolhida, bem como, beijar seu pescoço e lhe fazer cócegas nas costas e quadril! Infelizmente, para a maioria, os poetas existem, mas são poucos e estão acabando com o transcorrer do tempo.  Eles não são somente mentes geniais que escrevem, tendo em vista que possuem sensibilidade e sabem como tocar a alma feminina, a mesma querendo ou não. E triste será o homem que viver ao lado duma mulher que realmente conheceu um poeta e teve o monopólio de seus carinhos e dedicação; pois ele será uma sombra e somente isso.  No máximo, ele dirá “AMOR”, “EU TE AMO”, que são conceitos e conjunções com sentidos pré-montados em nossa história. Ele puxará a mulher pela mão e a levará para algum lugar sem saber se há o consentimento ou não. Ele a terá; porque precisa mostrar a necessidade daquilo que tem. – Talvez seja esse o motivo do final dos casamentos e dos contratos matrimoniais de nosso século: a falta de literatura ou de imaginação.

De fato, coitado será o homem que estiver à sombra dum poeta, pois, caso não lhe haja o dom, sua vida será um fracasso, porque as mulheres sempre comparam tudo entre si.

A mulher que tiver seu poeta, o mantenha vivo; pois o recurso está escasso.  Àquela que não tiver, que compre muitos livros de banheiro ou de cabeceira, talvez a ajudará no momento da frustração.  Entretanto, agora consegui compreender porque os homens gostam muito de revistas de mulher pelada, enquanto que as mulheres se dedicam à literatura; pois, enquanto a mulher quer a qualidade em um único homem; o homem deseja a quantidade imensurável de mulheres.  E, até nesse ponto, o poeta tem importância considerável; pois tanto a prostituta quanto o garoto de programa precisarão ler algo sobre sentimento para realizar seus clientes.  Logo, no final, o poeta acaba saciando a todos, com suas limitações física-culturais ou não.  Diante disso tudo, uma coisa é certa: – Eu sou poeta e tenho ciência do tamanho de minha graça e do meu valor diante do mundo.  Sei que sou imortal e que o meu lugar ser-se-á na cabeceira da cama de alguma mulher ou em seu banheiro. Mas, diante de tamanha magnitude, gostaria de ficar somente na sua cama e de fazer parte de sua vida como o poeta humano, e não, o poeta celulose; porque qualquer analfabeto rabisca papel.

 

Por Nadelson Costa Nogueira Junior

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