Solidão a dois

Alguém

Quando decidi escrever sob essa folha,

Ainda não fazia idéia de meu destino…

Até então, eu buscava escolhas…

Quando, de supetão, esbarrei em teu sorriso…

E me perdi no negro de seus cabelos;

Pois, sem gesto ou palavras,

Hipnotizaste-me como jamais acontecera…

Seria um sonho?

Seria a idealização duma miragem?

Não importas…  Afinal gostei…

Não sinto gosto doce assim já há muito tempo.

Isso, se algum dia já o senti…

Pois de ti não tive nada…

E já me faço por satisfeito em conhecê-la.

 

Mas que satisfação tola seria essa?

Ficar te admirando as escondidas…

Construí-la e guarda-la em sentimento…

No cofre imensurável de meu coração.

Seria tolice minha acreditar…

Que um simples mortal poderia guardar…

Àquilo que a cada instante aumenta e inflama;

Pois meu coração explodirá em lava…

E ejaculará sua ternura pelo infinito.

Pois, agora sei, de fato,

O motivo que surgem os vulcões.

Eles surgem do amor…  Amor que queima…

Amor, esse, que arde a alma,

E que alivia o corpo.

É o amor em total introspecção.

 

Maremotos arrasam meus litorais em lágrimas.

Chuvas torrenciais indicam enchentes…

Agora vejo que meu povoado de emoções passa fome.

Enquanto que a carcaça, os destroços apedrejam.

E quem reconstruirá meus caminhos?

Quem traçará a linha imaginária do Equador

Para redefinir o equinócio?

Quem verá novamente a aurora boreal?

Quem?

O estrago foi incalculável…

Não tenho mais contorno ou litoral…

Sou o resquício daquilo que um dia foi um arquipélago.

Não satisfeito, o divino me enviou um tornado de inspiração.

Consigo, veio uma tempestade poética…

Que, com suas letras, enfeitava o céu no finito.

E as letras pareciam e brilhavam como estrelas.

Elas formavam seu nome…

Enquanto que caiam e iluminavam o horizonte.

Dos destroços, só se via a luz…

A luz de seu nome e do seu riso…

A luz daquilo que é somente seu.

E numa alegoria crítica,

Já me fazia transportado por um cometa.

Assim foi a viagem contigo…

Uma reconstrução de lendas e mitos.

 

Levantei um templo em nome do amor…

O mesmo, em ruínas, caiu.

Elaborei a mais bela estátua a Afrodite…

Ao barro, a deusa voltou.

Escrevi uma enciclopédia de poesias…

As folhas se transformaram em pó.

Escrevi seu nome numa pedra…

A pedra se tornou ouro,

Enquanto que todo o sertão, ao redor,

Ganhou uma beleza jamais vista.

Pois assim foi a gênesis do paraíso.

 

Talvez, tal revolução literária tenha começado…

Antes do plano divino de meu nascimento.

Talvez, tudo já estivesse escrito nas estrelas…

Ou nas letras singulares de nossos nomes.

Talvez, eu tenha me apaixonado na sala de aula…

Ou em um comício político municipal de Rio Bonito.

Talvez, eu só quisesse o motivo para me aproximar…

Ou quem sabe, tenha sido tudo um acidente!

Quem saberá nessa vida?

Decerto, não vejo mais o mundo como antes…

Como não mais sou o mesmo antes de conhecê-la.

 

Pela primeira vez,

Tive vontade de ter um porta-retratos…

E, nele, expor uma fotografia sua.

Pela primeira vez,

Tive medo de conversar ao telefone contigo.

Pela primeira vez,

Senti muito frio e não queria ficar sozinho.

Sonhei em pé e deitado,

Aguardando um telefonema seu…

Esperei um milagre que ainda não veio.

Escrevi seu nome várias vezes na folha de papel.

Senti-me adolescente, como jamais havia sido antes.

Pela primeira vez,

Tive vontade de esquecer todo o passado…

E recomeçar do zero, o presente.

Tive vontade de aprender a engatinhar, andar,

Falar, pedir, e até ficar de castigo!

Gostaria de voltar à escola e estudar tudo novamente…

Aprender o apreendido.

Adoraria sentir o prazer…

E a falta de prática do primeiro beijo;

Bem como, a simplicidade das palavras indecentes!

Mas, tudo isso é passado…

Uma parte se perdeu em escolhas…

Outra parte desapareceu da memória.

 

De fato,

Eu adoraria conhecer seus pais,

Segurar sua mão na rua,

Namorar no sofá da sua casa,

Além de tomar o bom café da futura sogra.

Andaria, a pé, da minha casa até a sua…

E não me queixaria.

Daria, sempre que possível,

Uma passadinha na sua casa após a faculdade.

Mataria algumas aulas só pelo prazer de estar contigo.

Assistiria os ursinhos carinhosos e a luluzinha…

Passaria a ter um motivo maior na minha vida, você.

 

Talvez assim, eu me preocupe mais comigo…

Emagreça uns dez quilos,

Faça alguma luta marcial novamente,

Vá ao médico periodicamente para prevenção,

E recuse as demandas eleitorais do futuro.

Talvez, eu deixe de fazer tantos inimigos…

E aceite o mundo como o é.

Porque eu acho que chegou o fim da minha busca…

E a hora de começar um outro capítulo da minha vida,

O qual gostaria muito que ele tivesse seu nome…

Se Deus quiser, a futura mãe dos meus filhos.

 

Aliás, você tem compromisso para sábado à noite?

Porque o que vale é a tentativa…

 

 

Nadelson Costa Nogueira Junior

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