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O Evangelho dos Amantes.

Eu queria aprender astronomia.
Compreender os detalhes mínimos de cada corpo celeste.
Indicar cada constelação por nome e localização exata.
Guiar-me, à luz da lua, pela noite…
E ter a certeza de que não me perderia pelo caminho.

Eu queria ser um isótopo…
E ter participação direta na criação e alteração da matéria.
Ser… Ora massa… Ora energia.
E depois de tamanha obediência as leis da natureza,
Quebrá-las uma a uma;
Ocupando dois lugares ao mesmo tempo;
Viajando a velocidade da luz,
E retornando ao útero materno.

Eu queria voltar para casa,
E reconhecer minha figura zigótica como um tolo.
E num ato de regressão,
Simplesmente me desintegrar dessa realidade:
– Descobrir se realmente há vida antes da própria vida.
Voltar ao início duma era pura e sobrenatural.

Entretanto, o tempo é uma via de mão-única;
Enquanto que jamais sentirei tal gosto.
Então, recolho-me à minha insignificância,
E fico-me abstraindo sobre meus batimentos cardíacos.
Viajo pelo sangue e pela arte que correm em minhas artérias.

Respiro a consciência de que estou usurpando algo precioso de outrem;
Pois sou a continuidade dum processo alquímico;
Inspirado no fóton, no carbono, no oxigênio e no hidrogênio.
Sou uma matriz, fadada ao esquecimento.

Não há tristeza maior
Do que se saber parte da verdade:
Todos vêm ao mundo com um prazo de validade.
Todos nascem com o objetivo de desaparecer.
Essa é a regra que define o orgânico e o inorgânico,
O concreto e a essência do abstrato,
A equação matemática e a escrita,
O Criador e a própria criação.

Diante de tamanho questionamento,
Tomei-me a seguinte decisão:
– Quero saber tudo sobre você…
Cada detalhe físico e psicológico.
– Quero compreender sua personalidade e gostos…
Sentir seu perfume e manter aceso o brilho de seus olhos…
Viajar em sua topografia;
Tendo a exatidão de que o fator biológico é o nosso maior inimigo;
Enquanto que sua medida far-se-á com o tempo.

Quero-te olhar todos os dias,
Como que se cada momento fosse o último.
Talvez, o resultado ser-se-ia o aumento de minha ignorância;
Ou a maquiagem maquiavélica de minha solidão.
Outrossim, minha vida passar-se-ia ter mais sentido do que razão,
Mais vontade do que coragem,
Mais destino do que argumentação.

Todavia, no final de nossa fábula,
Teríamos concluído a jornada triunfante de nossas vidas,
Cujo título seria: – O Evangelho dos Amantes,
Que começaria da seguinte forma:
– No início, só havia a luz que vinha do brilho de seus olhos…
O homem deixou de ser o trópico de capricórnio;
Enquanto que a mulher, o de Câncer;
Uma vez que a busca estava concluída nela mesma,
Fundamentada na cumplicidade de dois viajantes.

Nadelson Costa Nogueira Junior

01/05/2006

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