Padre Dudu - Canção Nova.

Superar através do Amor um modelo social que degrada

“Recentemente visitando a Bolívia, o Papa Francisco voltou a pedir corajosamente “uma mudança das estruturas” para superar um modelo econômico que “exclui, degrada e mata”. Sabemos, com muita clareza, sobretudo nós que conhecemos o Evangelho, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera de atitudes e de coração, acaba a longo ou curto prazo por corromper-se e sucumbir. Se o coração não muda não podemos esperar mudança verdadeira em nenhuma estrutura!
Como estamos trabalhando para viver a cultura do amor nas nossas famílias e nas nossas sociedades? Que tipo de mundo queremos deixar aos nossos filhos? Num coração desesperado, longe de Deus, inimigo dos outros, é muito fácil ganhar espaço a lógica da degradação, da exclusão, do mal. Uma lógica que procura transformar tudo em cifras, em objeto de consumo, em cultura do provisório e descartável. O convite e o apelo de Deus é totalmente outro: Não é necessário excluir ninguém. Nele há apenas a lógica do amor, do perdão, da vida e da comunhão! Precisamos ser semeadores deste processo novo do Amor e não murmuradores que ocupam espaços sem nada fazerem!
A maior riqueza da vida de um povo não se mede pelo valor de sua moeda, suas obras de arte, suas ideias; mas pela vida de seu povo, suas crianças e jovens, seus idosos e casais. Deus nunca ignorou a dignidade de nenhuma das pessoas. Precisamos de reconciliação! Precisamos de retorno ao essencial! Precisamos de Deus! Precisamos de Amor! E o amor, disse o Papa Francisco nos EUA. Que tal se nos abrimos “aos milagres de amor”, que superam o “amor mesquinho e desconfiado, fechado em si mesmo”, e à realização dos pequenos gestos cotidianos de amor. São gestos mínimos, que uma pessoa aprende em casa; gestos de família que se perdem no anonimato da vida diária, mas que fazem cada dia diferente do outro. São gestos de mãe, de avó, de pai, de avô, de filho. São gestos de ternura, de afeto, de compaixão. Gestos como o prato quente de quem espera para jantar, como o café da manhã de quem sabe acompanhar o levantar na alvorada. São gestos familiares. É a bênção antes de dormir, e o abraço ao regressar duma jornada de trabalho. O amor exprime-se em pequenas coisas, na atenção aos detalhes de cada dia que fazem com que a vida tenha sempre sabor de casa.
Pequenos gestos de amor entre nós podem ser o início da grande mudança que o mundo precisa! Os homens e mulheres de boa vontade, sobretudo os cristãos, podem e devem ajudar a suscitar neste momento de crise que atravessamos pequenos gestos de amor, sinais da presença viva e operante de Deus no nosso mundo. Quem dera, continuou pedindo o Papa no último Domingo no Encontro Mundial com as Famílias na Filadelfia, que cada um de nós se abrisse aos milagres do amor a bem de todas as famílias do mundo, para assim podermos superar o escândalo dum amor mesquinho e desconfiado, fechado em si mesmo, sem paciência com os outros. Como seria bom se por todo o lado, mesmo para além das nossas fronteiras, pudéssemos encorajar e apreciar esta profecia e este milagre!

Precisamos de esperança! Encontro em uma frase do Papa mais uma direção divina que pode nos alimentar nestes tempos difíceis: “O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor” (Encíclica Laudato Si 12).
Nenhum de nós é detentor do futuro nem temos a interpretação perfeita da conjuntura atual; mas temos fé e esperança! A história não será construída por uma receita já pronta, mas sim pelas gerações que irão se suceder no horizonte de povos que avançarão o seu caminho. E nós, oramos, para que eles cresçam e busquem o bem do homem e do planeta respeitando a lei natural e lei eterna que Deus colocou em seus corações. Neste tempo em que até o mal foi globalizado, não podemos ficar alheios e imóveis esperando apenas pelos céus. Livres do “colonialismo ideológico” queremos viver e levar esperança e amor nos pés e nas mãos, no coração e nos lábios. Existe um Amor que nos leva a sério, que acredita em nós, um Amor que cura, perdoa, levanta e cuida. Um Amor que se aproxima e devolve a dignidade. Creiamos na mudança do mundo se esta mudança começar em nós! Podemos começar a crer agora?”

Pe. Dudu

Comentários